{"id":2087,"date":"2020-09-01T23:40:56","date_gmt":"2020-09-02T02:40:56","guid":{"rendered":"https:\/\/projetearquitetura.com.br\/nova\/?p=2087"},"modified":"2020-09-01T23:51:31","modified_gmt":"2020-09-02T02:51:31","slug":"a-pandemia-nos-mostra-qual-podera-ser-o-futuro-da-arquitetura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/projetearquitetura.com.br\/nova\/a-pandemia-nos-mostra-qual-podera-ser-o-futuro-da-arquitetura\/","title":{"rendered":"A pandemia nos mostra qual poder\u00e1 ser o futuro da arquitetura"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<div class=\"subtitle subtitle--M\">\n<h2>Ter\u00e1 chegado o momento para respostas r\u00e1pidas, pontuais, pragm\u00e1ticas a um ambiente constru\u00eddo que n\u00e3o se sentia mais seguro, ou seria este um momento revolucion\u00e1rio, uma chamada para uma reformula\u00e7\u00e3o total?<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"author\">\n<div class=\"authorPhoto\">\n<ul>\n<li>\n<div class=\"icon icon-40 icon-user-white\"><\/div>\n<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<div class=\"authorData\">\n<div class=\"authorName\">Philip Kennicott<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"authorData\">\n<div class=\"authorLocation\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na primavera de 2002, um curioso edif\u00edcio foi tomando forma em frente \u00e0 praia do Lago de Neuch\u00e2tel, na Su\u00ed\u00e7a. Parecia uma nua plataforma industrial cercada por uma confus\u00e3o de tubos e andaimes. Mas a estrutura tinha uma chave para &#8220;ligar&#8221; e, quando era acionada, este deck ao ar livre se transformava. A \u00e1gua do lago bombeava a alta press\u00e3o por meio de 35 mil esguichos, transformava-se em uma fina n\u00e9voa na forma de uma nuvem que cobria toda a plataforma. Os visitantes da Exposi\u00e7\u00e3o Su\u00ed\u00e7a, para a qual o edif\u00edcio foi projetado, entravam na nuvem, andavam pelo seu interior, subiam nela e experimentavam o curioso efeito de se encontrarem em um mundo agora tornado um borr\u00e3o, dissolvido em um nevoeiro artificial.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Blur Building<\/strong>, criado por Elizabeth Diller e Ricardo Scofidio, foi um dos eventos arquitet\u00f4nicos ic\u00f4nicos do novo mil\u00eanio. A estrutura tempor\u00e1ria teve o \u00fanico prop\u00f3sito de surpreender agradavelmente e talvez provocar os seus visitantes, oferecendo-lhes uma experi\u00eancia distinta e distante dos problemas e preocupa\u00e7\u00f5es di\u00e1rios. Mas a experi\u00eancia tamb\u00e9m criou sonhos tang\u00edveis que inspiraram os arquitetos durante um s\u00e9culo pelo menos &#8211; a criar espa\u00e7os em que o interior e o exterior fluam um no outro, a desmaterializar edif\u00edcios de pedra e a\u00e7o em algo mais fluido, din\u00e2mico e perme\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"text\">&#8220;O p\u00fablico pode beber o edif\u00edcio&#8221;, escrevera os seus autores. O projeto criava tamb\u00e9m espa\u00e7os sem limites, em que as pessoas eram convidadas a se movimentar sem padr\u00f5es fixos de circula\u00e7\u00e3o, sem corredores ou paredes para gui\u00e1-los ou cont\u00ea-los. Aparentemente, tratava-se de uma arquitetura de liberdade total.<\/p>\n<p class=\"text\">Imaginem se aquele edif\u00edcio fosse proposto hoje, no meio de uma pandemia, quando a primeira coisa que associamos \u00e0 palavra &#8220;got\u00edculas&#8221; n\u00e3o \u00e9 neblina, n\u00e9voa ou nuvens, mas o produto de uma tosse ou de um espirro, carregado de um v\u00edrus perigoso, um vetor da morte. Agora que todo mundo no planeta deve pesar cuidadosamente os benef\u00edcios e os danos ao atravessar a soleira da porta, entre o espa\u00e7o privado e p\u00fablico, entre interior e exterior, poderemos salvar algo da antiga fantasia de apagar essas fronteiras? Quando a maior esperan\u00e7a de frear e conter o coronav\u00edrus est\u00e1 na cuidadosa regulamenta\u00e7\u00e3o do movimento e a rigorosa obedi\u00eancia ao distanciamento social, o que acontece com o nosso desejo de edif\u00edcios que celebrem a vontade de vagar, da explora\u00e7\u00e3o prom\u00edscua e de uma intera\u00e7\u00e3o social espont\u00e2nea?<\/p>\n<p>Quando a covid-19 se espalhou da China para o mundo, e se tornou uma pandemia com consequ\u00eancias devastadoras para os sistemas de sa\u00fade nacionais e para a economia mundial, os arquitetos se viram na mesma situa\u00e7\u00e3o de qualquer outra pessoa: fechados em casa, inquietos a respeito do futuro e lutando para se manterem relevantes e necess\u00e1rios enquanto os clientes desapareciam ou adiavam grandes projetos. O fechamento afetou duramente a ind\u00fastria, e o \u00cdndice Billings da Arquitetura, que \u00e9 usado para projetar perspectivas de edifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o residenciais, registrando o seu maior decl\u00ednio em um m\u00eas desde que o Instituto Americano dos Arquitetos criou o indicador econ\u00f4mico, h\u00e1 25 anos. Em abril, mais de 8 em 10 escrit\u00f3rios de arquitetura avaliados pelo IAA pediram empr\u00e9stimos para o Programa de Prote\u00e7\u00e3o aos Sal\u00e1rios.<\/p>\n<p class=\"text\"><strong>De repente, a profiss\u00e3o se encontrava em uma encruzilhada.\u00a0<\/strong>Ter\u00e1 chegado o momento para respostas r\u00e1pidas, pontuais, pragm\u00e1ticas a um ambiente constru\u00eddo que n\u00e3o se sentia mais seguro, ou seria este um momento revolucion\u00e1rio, uma chamada para uma reformula\u00e7\u00e3o total? Em mar\u00e7o, as not\u00edcias do mundo da arquitetura s\u00f3 falavam em aulas adiadas, escrit\u00f3rios fechados e confer\u00eancias canceladas. No dia 26 de mar\u00e7o,\u00a0<strong>Michael Sorkin<\/strong>, uma das vozes mais fortes do pa\u00eds sobre planejamento urbano e arquitetura, morreu de complica\u00e7\u00f5es em decorr\u00eancia da covid-19. Ele era um respeitado educador e uma inspira\u00e7\u00e3o para alguns dos arquitetos mais progressistas e voltados para o social que atuam hoje. Sua perda foi um golpe para este campo. Em abril, a comunidade dos arquitetos e designers foi inundada por confer\u00eancias e conversa\u00e7\u00f5es online e ciber-confer\u00eancias, sobre uma variedade de assuntos t\u00e3o vastos quanto a profiss\u00e3o em si. Como transformar centros de conven\u00e7\u00f5es em hospitais e como tornar seguros hospitais superlotados. Mas tamb\u00e9m como &#8220;tornar a nossa casa um santu\u00e1rio&#8221; e como imprimir em 3-D prote\u00e7\u00f5es faciais em casa.<\/p>\n<p class=\"text\">Alguns pensadores estabeleceram grandes conex\u00f5es (um arquiteto apresentou &#8220;um novo modelo de projeto pode impedir a destrui\u00e7\u00e3o do ambiente que contribui para a pandemia&#8221;). Outros ligaram a pandemia a quest\u00f5es favoritas, familiares. &#8220;O coronav\u00edrus criou uma oportunidade para melhorar a experi\u00eancia banal nas nossas cidades&#8230;&#8221;<\/p>\n<p class=\"text\">Era a arquitetura sendo arquitetura. O alcance do campo \u00e9 t\u00e3o espec\u00edfico quanto ma\u00e7anetas de portas e interruptores de luz, e de um alcance t\u00e3o amplo quanto a infraestrutura dos transportes globais e as redes de comunica\u00e7\u00f5es. A profiss\u00e3o \u00e9 intensamente pr\u00e1tica, muitas vezes altamente especializada e ainda tremendamente te\u00f3rica, e a repentina explos\u00e3o aparentemente ca\u00f3tica das respostas \u00e0 pandemia reflete simplesmente a maneira como ela pensa de forma coletiva. Mas havia uma urg\u00eancia, determinada pelo n\u00famero crescente de mortes em raz\u00e3o do v\u00edrus.<\/p>\n<p class=\"text\">Os designers iluminados sabem que as nossas cidades precisam ser densas e conectadas para evitarmos os problemas ambientais dos bairros ao redor do centro de meados do s\u00e9culo, e uma cultura baseada no autom\u00f3vel. Edif\u00edcios altos, com elevadores, contribuem para aumentar o adensamento. A vida urbana deve tamb\u00e9m estar repleta de intera\u00e7\u00e3o e energia social para que possamos viver felizes em m\u00fatua proximidade. A estabilidade social atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es exige uma vida em comunidades fluidas, multigeracionais, integrando e n\u00e3o isolando ou alienando os jovens, os que trabalham e os idosos. Mas a covid-19 amea\u00e7ou tudo isto, n\u00e3o apenas as ideias nascidas em mentes inspiradas a respeito de cidades democraticamente engajadas, socialmente diferenciadas e densas, mas tamb\u00e9m a maneira como habitamos os edif\u00edcios e nos movimentamos atrav\u00e9s do espa\u00e7o. Nas grandes cidades ao redor do mundo, as pessoas olharam-se entre si preocupadas, por acima das m\u00e1scaras, preferindo a beirada das cal\u00e7adas, abra\u00e7ando a entrada dos edif\u00edcios, deixando o elevador passar para n\u00e3o encontrar outros passageiros em um espa\u00e7o confinado. Nos rinques de patina\u00e7\u00e3o transformados em necrot\u00e9rios improvisados surgiram imagens. Pela televis\u00e3o, os americanos viam membros da mesma fam\u00edlia reunidos fora das janelas dos asilos de idosos, onde seus pais e av\u00f3s estavam morrendo em n\u00fameros recordes, sem prote\u00e7\u00e3o nas intemp\u00e9ries entre altos arbustos ornamentais, pondo as m\u00e3os nas janelas acima deles. Em busca de comunica\u00e7\u00e3o com as pessoas do outro lado das paredes de drywall cobertas de placas de alum\u00ednio. Esta n\u00e3o foi apenas uma trag\u00e9dia social: foi a marca do fracasso arquitet\u00f4nico e um exemplo em tempo real de como as pessoas ir\u00e3o propor os edif\u00edcios se estes n\u00e3o as servirem adequadamente.<\/p>\n<p class=\"text\">Ao mesmo tempo, centenas de milh\u00f5es de pessoas, inclusive muitos arquitetos, encaravam as inadequa\u00e7\u00f5es de seus pr\u00f3prios espa\u00e7os dom\u00e9sticos: apartamentos pequenos, amontoados ao redor de espa\u00e7os para eventos, e espa\u00e7os para gin\u00e1stica cujo uso n\u00e3o era seguro, com a lavanderia dispon\u00edvel somente no subsolo. As casas dos bairros perif\u00e9ricos com seus conceitos abertos, com interiores amplos, careciam de divis\u00f5es suficientes para manter as pessoas com o v\u00edrus separadas das que n\u00e3o tinham. \u00c0 medida que semanas de isolamento foram se tornando meses, e o medo de um aumento dos cont\u00e1gios crescia com a proximidade do ver\u00e3o, estas inadequa\u00e7\u00f5es foram criando um novo consenso, n\u00e3o articulado plenamente, mas percebido por todos: a arquitetura diz respeito a direitos, ao ar, a acesso igual \u00e0s necessidades da vida.<\/p>\n<p class=\"text\">Enquanto a pandemia n\u00e3o cessa, e os arquitetos se sentem encorajados pela crescente percep\u00e7\u00e3o de que este \u00e9 um momento de transforma\u00e7\u00e3o que poder\u00e1 derrubar antigas hierarquias, e at\u00e9 mesmo o capitalismo que conhecemos, eles est\u00e3o pensando no legado do modernismo e sua promessa de reformula\u00e7\u00e3o do mundo. Ser\u00e1 poss\u00edvel que a arquitetura venha a ser amplamente pol\u00edtica, como foi outrora, mas mais eficiente? Ela poder\u00e1 empreender projetos maiores do que cidades onde se possa andar a p\u00e9 e arranha-c\u00e9us eficientes em mat\u00e9ria de energia? Ela visar\u00e1 algo maior do que a cria\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios em que vivemos, trabalhamos e morremos, algo mais semelhante a um ambiente que nos cerca, que nos proteja e inspire? Acaso a arquitetura, assim como o mundo que o v\u00edrus amea\u00e7ava, poder\u00e1 tornar-se org\u00e2nica?<\/p>\n<p class=\"text\">TRADU\u00c7\u00c3O DE ANNA CAPOVILLA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"datetime subtitle--XS\">\n<div class=\"date\"><\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Ter\u00e1 chegado o momento para respostas r\u00e1pidas, pontuais, pragm\u00e1ticas a um ambiente constru\u00eddo que n\u00e3o se sentia mais seguro, ou seria este um momento revolucion\u00e1rio, uma chamada para uma reformula\u00e7\u00e3o total? 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