Especialistas analisam e dão dicas para conforto e bom trabalho no home office

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Data

29/06/2020

Categoria

Arquitetura

A pandemia do novo coronavírus mudou hábitos, visões, as ruas, os escritórios. Mas para isso tudo mudar, um espaço foi, talvez, o que mais tenha sofrido adaptações em todo o mundo: as residências. No Brasil, em um fim de semana de março, a vida dos trabalhadores teve que ser rapidamente reestruturada. De improviso, muita gente passou a trabalhar em casa. Movéis foram empurrados, decorações de mesa de jantar deram lugar ao laptop e papelada, e ambientes foram alterados para formar um cenário mais adequado às reuniões virtuais. Funcionou. E o que se tem como certeza agora é que as residências ganharam muita importância no mundo dos negócios. O Rio Capital Mundial da Arquitetura ouviu profissionais que analisam e dão dicas para quem aprovou e teve aprovação neste improviso e adotará o home office, que já está consolidado: veio para ficar. Mas sem tirar a característica de lar.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que a previsão de migração do trabalho presencial para o home office no Brasil é de 22,7% das ocupações, o que representa mais de 20 milhões de pessoas. A análise por estados brasileiros mostra que o Distrito Federal tem o maior potencial de teletrabalho com 31,6% dos empregos podendo ser executados remotamente, ou seja, em torno de 450 mil pessoas. Em segundo lugar vem o Estado de São Paulo, com 27,7% dos empregos, sendo cerca de 6,1 milhões de pessoas, seguido do Rio de Janeiro: 26,7%, ou pouco mais de 2 milhões. Na comparação internacional entre 86 países, Luxemburgo aparece com a maior proporção de trabalho remoto, seguido de Suíça, Suécia e Reino Unido. O Brasil aparece na 45ª posição mundial e no segundo lugar na América Latina (primeiro é o Chile). A pesquisa indica que um quarto das atividades poderiam ser feitas à distância. Entre as principais, estão os diretores e gerentes, profissionais de ciências e intelectuais e os de nível médio.

Os efeitos já são percebidos. Na empresa em que a arquiteta Daniela Larghi trabalha, a cada 10 solicitações de projetos para residências, atualmente, oito são para criação de espaço funcional. Ela não tem dúvidas de que as empresas vão aderir à nova prática.

“Esta tendência é muito forte. Um cliente desistiu do closet para fazer seu espaço de trabalho no quarto, onde trabalhará três vezes na semana “, conta Daniela.

Há vantagens para o empregado, como menos gastos com vestuário, mais tempo com a família e para se exercitar; e para o empregador que reduzirá gastos com transporte do funcionário, energia elétrica, aluguel de espaço. Mas, para a arquiteta, é fundamental definir um espaço exclusivo para o batente.

“É negativo misturar o trabalho com a família. Tem que ter a área apropriada para cada coisa, estabelecer os horários, que atualmente estão funcionando no improviso de certa forma. Se o funcionário senta na sala para trabalhar, é solicitado pelas familiares. Tem que ter disciplina para separar.”

Segundo Daniela, algumas famílias estão destinando até um dos quartos da casa o home office, que pode ser reversível de acordo com a necessidade: o escritório ter um sofá-cama, para hóspedes em alguma eventualidade. Outras, estão reservando um espaço no próprio quarto e ela recomenda que seja o mais separado possível da cama quando o quarto for de casal. Até halls entre os quartos está sendo transformado em escritório. Mas frisa que o projeto deve ser bem personalizado. Ou seja: arquitetos devem ouvir bem todas as características, necessidades e disponibilidades de quem contrata o serviço, para criar o ambiente ideal para cada um.

Mas lembra que o importante é ter um espaço com iluminação adequada, ventilação, ser organizado, tranquilo e confortável. Ter uma mesa e cadeira ergonômicas.

Pandemia consolidou tendência que vem dos anos 80

A flexibilidade de cômodos dos lares para se destinarem a trabalho não é de hoje, segundo o pesquisador do Centro de Investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design da  Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa Mário Saleiro Filho, mas agora está se consolidando devido à pandemia. Prevê que apenas um terço dos funcionários que trabalhavam em escritórios, permanecerão neles.

Segundo ele – que é também doutor e mestre em Arquitetura pelo Programa de Pós-graduação em Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor associado do Departamento de Arquitetura e Urbanismo do Instituto de Tecnologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – é uma tendência iniciada no século passado, quando muitas famílias optaram pelos serviços de diaristas em substituição à empregada doméstica, que muitas vezes dormia em quarto reservado a ela na casa dos patrões. Quando esta mudança aconteceu, muitos destes quartos foram sendo modificados, ganhando mais instalações elétricas, entre outras adaptações e virando escritórios.

Este espaços foram reduzidos nos últimos anos porque passamos a trabalhar ferramentas digitais, com computadores de menor porte, com bibliotecas gigantes em um simples smartphone.

“Esta prática já foi chamada de teletrabalho também. Alguns nomes serviram de atrativo para o mercado imobiliário vender melhor. A pandemia acelerou este processo de trabalho em casa”, explica Saleiro.

Patrícia Vancini trabalha há cinco anos em home office, se reunindo no escritório apenas três vezes por mês e, como colocado por Saleiro, a empresa estuda ampliar esta modalidade no pós-pandemia. Ela vê vantagens e desvantagens na sua forma de trabalho. Entre os pontos positivos está o fato de poder acompanhar mais de perto as atividades dos filhos de 4 e 5 anos. O lado negativo, diz ela, é que o trabalho nunca para.

Atualmente, com novos hábitos de higiene que todos estão tendo que adotar, ele considera importante que o espaço de trabalho seja criado na entrada da residência, para evitar a circulação na casa de clientes ou que o próprio trabalhador saia para comprar um simples material de trabalho e tenha atravessar toda a casa para voltar a trabalhar.

 

“O ambiente de trabalho deve estar o mais próximo da entrada da residência possível”, defende.

 

Saleiro destaca ainda a importância de ter na casa, a partir de agora, espaços curingas, que se transformem rapidamente de acordo com a necessidade. Cita por exemplo, que se mantenha área para exercícios físicos e outras atividades que antes se fazia nas ruas.

Isolamento acústico e dicas de escritório prático

Pelo menos quem trabalha em grandes centros urbanos terá que se preocupar com os ruídos que chegam do lado de fora nos prédios residenciais. É um dos detalhes que prejudicam o dia a dia de trabalho se não for previsto, segundo o arquiteto e urbanista Luciano Cavalcanti Albuquerque, que trabalha com interiores e restauração de monumentos. Ele dá dicas para adaptações práticas no novo espaço funcional em casa (como na foto do alto).

“Vidro mais grosso e uso de cortinas já melhoram a acústica no ambiente. Será preciso também uma cadeira ergonômica, com rodinhas para se movimentar com facilidade. Manter uma cafeteira também dá a sensação de ambiente de trabalho, mesmo que fique na cozinha e de vez em quando a pessoa vá lá tomar um cafezinho”, orienta.

Indica prateleiras suspensas, acima do nível das portas, Para acomodar coisas que não são usadas todos os dias. “Cria um visual de sancas”, explica. Também reforça a necessidade de uma bancada e gavetas, mas criando um ambiente harmonioso para evitar impactos.

Caso o morador tenha que usar a mesa da sala, por exemplo, Luciano Cavalcanti propõe que o material seja retirado e guardado o fim do expediente. Que o espaço volte a ser sala de jantar para a família. E sugere a transformação dos atuais espaços de escritórios em apartamentos residenciais pequenos, o que depende de legislação, mas não é impossível a médio prazo.

“Isso pode ser feito principalmente em cidades saturadas. O empregador deixará de pagar aluguel, IPTU, contas de luz, etc. Fora que o mercado precisa de prédios residenciais, explica ele, que vê a possibilidade de aumento de utilização de coworkings”.

Protocolo para o trabalho dentro de casa

A psicóloga Gisele Aleluia concorda que o trabalho já estava sendo levado para a casa dos funcionários há muito tempo, principalmente pela facilidade de comunicação com a empresa, através de ferramentas via internet. E ressalta que agora as pessoas precisam se conectar com as novas necessidade e perceber as possibilidades. A mudança de comportamento profissional tem exigido tanta atenção, que ela desenvolveu um protocolo para quem vai aderir ao home office daqui em diante.

“É importante definir privacidade e horários de trabalho. Na semana passada, por exemplo, muita gente esqueceu o feriado de Corpus Christi, porque está trabalhando sem controle em casa, o que gera problemas. A satisfação do trabalho em casa está sendo reconhecida tanto pelos funcionários quanto pelas empresas. Ninguém acha que está se trabalhando menos”, analisa Gisele.

A psicóloga acredita que com a decisão oficial de levar o escritório para a casa, esta questão poderá ser resolvida por serem passíveis de acordo entre a empresa e o funcionário. E acrescenta que um dos fatores imprescindíveis por parte dos empregadores é criar formas de integrar o trabalhador à empresa, para que ele não se sinta isolado.

Ela esclarece também a necessidade de divisão de tarefas em casa para permitir o tempo necessário de trabalho:

“Os lares estão sendo reestruturados e haverá necessidade de maior colaboração entre as pessoas que convivem para que funcione bem”, diz.

O protocolo criado pela psicóloga inclui não trabalhar na cama, nem de pijama, criar uma rotina e ter organização.

“Achei interessante um texto que li recentemente que recomendava que as pessoas trabalhassem até de cinto quando estivessem em casa, por dar um senso de organização. Acredito que se manter arrumado no horário de trabalho é o suficiente”, acrescenta.

Veja o protocolo de home office sugerido por Gisele Aleluia:

ESTRUTURA:

1) Ter um local separado, mesa, cadeira e apontamentos. Água, café, porta fechada.
2) Evite os espaços comuns da casa: sala, quarto de TV, cozinha. A não ser que essa tenha sido uma concessão de toda a família para o evento.
3) Local organizado para o trabalho. Se for seu quarto, cama feita, mesmo se ela não for aparecer.
4) Atenção ao que vai aparecer na tela, para os outros. E, se não for usar imagem( tela) se organizar com tudo o que for precisar a mão, a fim de otimizar o tempo.
5) Encerre o expediente diário, arrumando seu local de trabalho. Agradeça.

METODOLOGIA:

1) Ter uma rotina pré-estabelecida, com uma agenda anteriormente preenchida( planner).
2) Anote o que fez e o que pretende fazer. Guarde as anotações.
3) Horário de trabalho: manhã, tarde ou noite pré-fixado com paradas para almoço e lanche.
4) Avisar às pessoas de casa sobre seu horário de trabalho e de parada e possíveis mudanças. Utilize o Whatsapp para se comunicar com as pessoas de casa. Isso impede que elas batam na porta e interrompam. Uma folha pode ser colocada na porta para que elas saibam.
5) Tenha respeito e paciência com as crianças que estão no local. Elas não querem atrapalhar, querem ajudar. As ajude a colaborar.
6) Não trabalhe os sete dias da semana. Respeite os feriados.
7) Acorde e se arrume para trabalhar: banho, roupa limpa, barriga cheia.
8) Peça ajuda. As pessoas da sua família não são suas inimigas…estamos num momento novo…somente.
Estamos todos aprendendo.

Vantagem para o meio ambiente

O home office também apresenta pontos positivos em relação ao meio ambiente, já que possibilita a diminuição do uso de veículos automotores públicos e particulares, reduzindo, assim, as emissões de gases que causam o efeito estufa. A iniciativa reduz o número de viagens de ida e volta ao escritório e, em consequência disso, a poluição. Um estudo do Ipea apontou, há sete anos, que este tipo de deslocamento mantinha o trânsito como a principal causa da poluição

Fonte UIA 2021 Rio

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